Incidentes de navegação têm ano a ano, mas desafios climáticos e logísticos são motivo de preocupação.
No último ano, a indústria naval internacional seguiu com sua tendência positiva de segurança. Porém, ainda tem que lidar os desafios da Covid, aplicar os ensinamentos do incidente com o Ever Given no Canal de Suez e preparar-se para os desafios cibernéticos e de mudança climática que se aproximam. O número de grandes embarcações perdidas permaneceu em níveis baixos em 2020, e os incidentes reportados diminuem ano a ano, de acordo com o estudo da seguradora marítima Allianz Global Corporate & Specialty (AGCS) Safety & Shipping Review 2021.
“O setor naval tem mostrado grande resiliências nesta pandemia, como evidenciado pelos fortes volumes de comércio e a recuperação quevemos em vários segmentos da indústria”, diz o Capitão Rahul Khanna, Diretor Global de Consultoria de Risco de Marine da AGCS. “As perdas totais estão em níveis historicamente baixos pelo terceiro ano consecutivo. No entanto, nem tudo é um mar de rosas. A atual crise nas tripulações, o número crescente de problemas decorrentes de navios maiores, as crescentes preocupações com os atrasos e interrupções na cadeia de abastecimento, bem como o cumprimento das metas ambientais, trazem desafios significativos de gerenciamento de risco para os armadores e suas tripulações”.
O estudo anual da AGCS analisa as perdas e acidentes (incidentes) de transporte marítimo relatados acima de 100 toneladas brutas. Durante 2020, 49 perdas totais de embarcações foram relatadas globalmente, quantidade semelhante ao ano anterior (48) e o segundo menor total neste século. Isto representa um declínio de 50% ao longo de 10 anos (98 em 2011). O número de incidentes de navegação diminuiu de 2.818 para 2.703 em 2020 (em 4%). Houve mais de 870 perdas de navios durante a última década.
Os mares do Sul da China, Indochina, Indonésia e Filipinas continua a ser o principal ponto de perdas globais, responsável por uma em cada três perdas em 2020 (16); com incidentes a crescer de um ano para o outro. Os navios de carga (18) foram responsáveis por mais de um terço das embarcações perdidas no ano passado e por 40% das perdas totais durante a última década. Os naufrágios (afundamentos/submerções) foram a principal causa das perdas totais durante o ano passado e responderam por uma em cada duas embarcações. Os danos/falhas em máquinas foram a principal causa de incidentes de navegação em todo o mundo, com 40% de registros.
Fatores Covid-19
Apesar do impacto econômico devastador da Covid-19, o efeito sobre o comércio marítimo tem sido menor do que se temia inicialmente. Este ano, o volume global do comércio marítimo deve superar os níveis de 2019, depois de ter diminuído ligeiramente em 2020. Entretanto, a recuperação permanece volátil. Os atrasos relacionados à Covid-19 nos portos e os problemas de gestão da capacidade de navegação levaram ao congestionamento em horários de pico e a uma escassez de contêineres vazios. Em junho de 2021, estimava-se que havia um recorde de 300 cargueiros a esperar para entrar em portos superlotados. O tempo que os navios porta-contêineres esperam para atracar nos portos mais do que dobrou desde 2019.
A questão das mudanças nas tripulações dos navios é uma crise humanitária que continua a afetar a saúde e o bem-estar dos marinheiros. Em março de 2021, estimava-se que cerca de 200.000 marinheiros permaneceram a bordo de navios, impossibilitados de serem repatriados devido às restrições da Covid-19. Períodos prolongados no mar podem levar à fadiga mental e a tomadas de más decisões, o que acaba por afetar a segurança. O treinamento dos marinheiros acaba impactado, enquanto a atração de novos talentos é problemática, dadas as condições de trabalho. A futura escassez de tripulações pode ter consequências no aumento da demanda por transporte marítimo à medida que o comércio internacional se recupera.
Embora a Covid-19 tenha resultado em sinistros marítimos diretos limitados até o momento, o setor não foi poupado de perdas significativas. “Em geral, a frequência de reclamações marítimas não foi reduzida. Vemos também um aumento no custo de sinistros de casco e máquinas devido a atrasos na fabricação e entrega de peças de reposição, bem como um aperto no espaço disponível no estaleiro”, conta Justus Heinrich, Líder Global de Produto – Marine Casco, na AGCS. “Os custos associados a recuperações e reparos também aumentaram. No futuro, as seguradoras poderão ver um aumento potencial nos sinistros de quebra de máquinas se a Covid-19 tiver afetado a capacidade das tripulações de realizar a manutenção ou seguir os protocolos dos fabricantes”, completa.
Embarcações maiores, exposições maiores
O bloqueio do Canal de Suez pelo navio porta-containeres Ever Given em março de 2021 é o último de uma lista crescente de incidentes com grandes embarcações ou mega-navios. Os navios se tornaram cada vez maiores à medida que as empresas de navegação buscam economia de escala e eficiência de combustível. Os maiores navios porta-contêineres quebram a marca de 20.000TEU, com navios acima de 24.000TEU sob encomenda – só a capacidade dos navios porta-contêineres aumentou em 1.500% em 50 anos e mais do que dobrou nos últimos 15 anos.
“As embarcações maiores apresentam riscos únicos. Responder a incidentes é mais complexo e caro. Os canais de aproximação nos portos foram dragados mais fundo e os cais e ancoradouros estendidos para acomodar navios de grande porte, mas o tamanho dos portos tem permanecido o mesmo. Como resultado, uma ‘falha’ pode se transformar em uma ‘batida’ mais frequentemente para esses ultra gigantes navios porta-contêineres”, afirma o Capitão Nitin Chopra, Consultor Sênior de Risco Marítimo da AGCS. Se o Ever Given não tivesse sido liberado, a recuperação teria exigido o longo processo de descarga de cerca de 18.000 contêineres, oq ue exigiria guindastes especializados. A remoção dos destroços do grande porta-aviões, Golden Ray, que virou em águas norte-americanas em 2019 com mais de 4.000 veículos, levou mais de um ano e meio e custou centenas de milhões de dólares.
O número de incêndios a bordo de grandes embarcações tem aumentado significativamente nos últimos anos. Só em 2019, houve um recorde de 40 incêndios relacionados à carga. Em todos os tipos de navios, o número de incêndios/explosões com perdas totais aumentou novamente em 2020 e atingiu o maior patamar em 10 anos. Incêndios muitas vezes começam em contêineres, o que pode ser o resultado da falta ou incorreta declaração de cargas perigosas, tais como produtos químicos e baterias. Quando mal declarados, estes podem ser indevidamente embalados e armazenados a bordo, o que pode resultar em ignição e/ou complicar a detecção e combate a incêndios. Incidentes maiores mostraram que os incêndios em contêineres podem facilmente sair de controle e resultar no abandono do navio pela tripulação por motivos de segurança, o que aumenta o tamanho da perda.
A perda de contêineres no mar também aumentou no ano passado (mais de 3.000) e continuou em um nível elevado em 2021, isso impacta as cadeias de abastecimento e representa um risco potencial de poluição e navegação. O número perdido é o pior em sete anos. Embarcações maiores, condições climáticas mais extremas, aumento nas taxas de frete e pesos de carga declarados erroneamente (o que levou ao colapso dos contêineres); bem como o aumento da demanda por bens de consumo, podem contribuir para este aumento.
Atraso e problemas na cadeia de abastecimento
A resiliência da cadeia de abastecimento marítimo está em destaque após uma série de eventos recentes. O incidente Ever Given reverberou através das cadeias de abastecimento globais que dependiam do transporte marítimo. Ele agravou os atrasos e interrupções já causadas por disputas comerciais, condições climáticas extremas, a pandemia e o aumento da demanda por mercadorias e commodities em contêineres. “Tais eventos expõem e ampliam os elos fracos das cadeias de abastecimento”, revela o Capitão Andrew Kinsey, Consultor Sênior de Risco Marítimo da AGCS. “O desenvolvimento de cadeias mais robustas e diversificadas se tornará cada vez mais importante, assim como a compreensão de seus pontos de picos e gargalos”.
Pirataria e preocupações cibernéticas
O hotspot mundial da pirataria, o Golfo da Guiné, foi responsável por mais de 95% do número de tripulantes sequestrados em todo o mundo em 2020. No ano passado, 130 tripulantes foram sequestrados em 22 incidentes na região – o número mais alto de todos os tempos – e o problema continuou. Os navios têm sido atacados mais longe da costa – mais de 200 milhas náuticas em alguns casos. A pandemia de Covid-19 pode exacerbar a pirataria, pois está ligada a problemas sociais, políticos e econômicos subjacentes, que podem se deteriorar ainda mais. Antigos focos como a Somália poderiam reemergir.
O relatório também observa que todas as quatro maiores companhias marítimas do mundo já foram atingidas por ataques cibernéticos, e com os conflitos geopolíticos cada vez mais disputados no espaço cibernético, cresce a preocupação com um ataque potencial às infraestruturas marítimas críticas, como um grande porto ou rota de navegação. O aumento da conscientização – e da regulamentação – do risco cibernético tem se traduzido em uma maior aceitação do seguro cibernético pelas companhias de navegação, embora a maior parte ainda foque nas operações em terra até o momento.
Quadro ambiental
Com os movimentos e esforços internacionais para enfrentar a mudança climática é provável que a indústria naval esteja sob pressão crescente para acelerar seus esforços. “Um enorme investimento em pesquisa e desenvolvimento é necessário para que a indústria possa atingir as metas desafiadoras que têm sido estabelecidas. A frota e a tecnologia existentes hoje não levará a indústria naval à meta da Organização Marítima Internacional de um corte de 50% nas emissões até 2050, muito menos às metas mais ambiciosas discutidas pelos governos nacionais”, explica Khanna.
No ano passado, o limite do teor de enxofre do combustível dos navios foi cortado. Conhecido como IMO 2020, o corte deve reduzir as emissões de óxido de enxofre (SOx) nocivo da navegação em 77%. As seguradoras já perceberam uma série de sinistros de danos ao maquinário relacionadas a depuradores, que removem o SOx dos gases de exaustão dos navios que utilizam combustível naval pesado.
Locais de perdas e incidentes mais frequentes
Segundo o relatório, a região marítima do Sul da China, Indochina, Indonésia e Filipinas é também o principal local de perda da última década (224 embarcações); impulsionada por altos níveis de comércio local e internacional, portos congestionados e rotas marítimas movimentadas, frotas mais antigas e exposição extrema ao tempo. Juntas, as regiões marítimas do Sul da China, Indochina, Indonésia e Filipinas, Mediterrâneo Oriental e Mar Negro, e Japão, Coréia e Norte da China são responsáveis pela metade das 876 perdas de navegação dos últimos 10 anos (437). As Ilhas Britânicas, Mar do Norte, Canal da Mancha e Baía da Biscaia tiveram o maior número de incidentes reportados (579) em 2020, embora este tenha sido reduzido ano a ano. E finalmente, os navios mais propensos a acidentes do ano passado foram um ferry da Ilha Grega e um RoRo em águas canadenses, ambos envolvidos em seis incidentes diferentes.
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